Complexo de Peter Pan
Ando, de novo, com o coração apertado.
Parece que, de repente e num curto espaço de tempo, várias pessoas decidiram participar numa espécie de conspiração para atormentarem e inquietarem a minha singela e serena existência.
Subitamente muita gente tem planos para mim, desiludem-se com minha “demasiadamente pequena ambição” e até se ofendem quando afirmo (e reafirmo!) que o meu futuro está numa sala de aula.
Aparentemente a profissão de professor terá algo de menor, um sabor a segunda categoria, que eu, distraidamente, não me terei apercebido…
Não quero, de forma alguma, parecer ingénua ou, até mesmo, mal agradecida. É óbvio que eu percebo o imenso elogio que se esconde por detrás de tais atitudes, mas não concordo com ele e, definitivamente, não o mereço.
Quando as circunstâncias da minha vida me presentearam com uma segunda oportunidade, abriram-se, perante mim, duas estradas com inícios, rumos, percursos e fins completamente distintos. Foi demorada a minha decisão, mais demorado ainda foi o primeiro passo, mas quando o dei levava duas certezas: não voltaria a olhar para trás e não me desviaria, nem por um instante, do meu propósito. Até hoje, mantive-me fiel às poucas certezas que vou tendo na vida.
Assim, a minha escalada pelo mundo da Educação não foi – não é – espontânea, irreflectida, inconsciente, muito menos, leviana.
Caramba, vocês conhecem-me melhor do que isto!!!
“ Mas tu és uma antropóloga!!!”, ouço frequentemente dizerem. Não. Talvez resida aí a confusão. Eu sou PROFESSORA. Não tenho, nem quero saber de outros amores.
A Antropologia é, sem dúvida, uma mais valia na minha formação e, sobretudo, na minha vida. A Antropologia ensinou-me a ver – na verdadeira acepção da palavra –, ensinou-me a pensar, muniu-me de instrumentos preciosos, amadureceu-me, esclareceu-me, iluminou-me, mas nunca me possuiu. Ela foi sempre minha, …eu nunca fui dela.
A sala de aula preenche-me, realiza-me, completa-me. E tomou-me de assalto, desde a primeira vez (ocorre-me a célebre frase de Fernando Pessoa “ Quando te vi, amei-te já muito antes”), mudando-me para sempre. Mas, e no entanto, na minha essência sinto-me a mesma. Continuo a ser o que sempre fui, uma mulher de ordem e de paz, mas decidida a caminhar sempre e ir sempre para a frente, custe o que custar, sem ódios, sem ameaças, mas também sem desfalecimentos, inexoravelmente, até à última extremidade, até onde seja necessário ir para lutar pela escola e pelo mundo em que acredito.
Romântico? Piegas? Patético? Talvez. Até pode ser, mas eu tenho desculpa. Segundo dizem, eu não consegui ultrapassar o Complexo de Peter Pan. Passo a transcrever a explicação que a minha querida prima Tânia, tão gentilmente, me deu “O complexo de Peter Pan é algo relacionado com a criança que há em nós. É o lado (bom) da nossa personalidade que não cresceu, que acredita em fadas e estórias de encantar, como a magia que nos faz voar e vencer os ganchos dos capitães (…)”. E se a Tânia diz, então é verdade.
Desculpem, mas eu tenho de sorrir! Fico contente pela minha constante e incurável alucinação. Desculpem, mas eu tenho de chorar… não consigo deixar de sentir pena por todos aqueles que, em alguma altura das suas vidas, perderam ou abdicaram do privilégio de sonhar.
É que a liberdade, na sua forma mais verdadeira e plena, apenas reside na capacidade de pensar e de sonhar. Não há regime, por mais opressor que seja, que se assemelhe à ditadura da ignorância, porque esta é a barreira mais feroz e mais resistente à liberdade.
Quando somos donos e senhores do nosso pensamento, quando exercemos o nosso direito (e dever!) de pensar, damos um grande passo na conquista da liberdade. Mas quando sonhamos…Oh! Quando sonhamos o passo é gigante! Não existem grades, muros, censuras, torturas que consigam destruir a nossa imaginação e os nossos sonhos, daí o facto de nos levantarmos todos os dias. Ou não?
Sou uma mulher de sonhos, de utopias, de causas, de militâncias. A minha militância faço-a na sala de aula, os meus sonhos levo-os e trago-os da sala de aula, a minha causa e a minha utopia são a sala de aula.
Certa de que todos temos como função (e obrigação) absoluta deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos, e porque acredito que os rumos do mundo estão condicionados e dependentes dos caminhos da Educação, não encontro nada mais coerente do que fazer a minha contra-guerra a partir do e no ensino.
Os homens de hoje andam pelo mundo ressequidos e isolados. Mas a esta união de homens ressequidos e isolados não podemos chamar sociedade! Não pode haver uma sociedade fértil onde não existe progresso, nem elevação humanos. O verdadeiro perigo para a humanidade é o vazio das almas, dos cérebros: tudo o resto não é senão uma consequência disto.
Não há nada mais triste, mais dramático, mais trágico do que um espírito amputado. Infelizmente, ainda não inventaram próteses para tal…
O meu desejo é que professores e alunos aceitassem a utopia de uma nova Educação, de uma nova sociedade e de um novo ser humano que procuram o caminho da eticidade, um caminho igualitário e livre, … acima de tudo, livre.
É preciso voltar atrás, refazer a criança, orientar para ela os esforços da ciência, porque é nela que residem a origem e a chave dos enigmas da humanidade.
Como não tenho quaisquer dúvidas de que a resposta para os grandes problemas da humanidade, assim como a salvação do mundo estão, sobretudo, nas mãos da Educação, mantenho-me firme, teimosa, birrenta no meu lugar; na minha sala de aula, seja ela onde for, seja ela como for. Desde que seja para sempre…
Porque eu, irremediavelmente utópica, quero salvar o mundo!....
Parece que, de repente e num curto espaço de tempo, várias pessoas decidiram participar numa espécie de conspiração para atormentarem e inquietarem a minha singela e serena existência.
Subitamente muita gente tem planos para mim, desiludem-se com minha “demasiadamente pequena ambição” e até se ofendem quando afirmo (e reafirmo!) que o meu futuro está numa sala de aula.
Aparentemente a profissão de professor terá algo de menor, um sabor a segunda categoria, que eu, distraidamente, não me terei apercebido…
Não quero, de forma alguma, parecer ingénua ou, até mesmo, mal agradecida. É óbvio que eu percebo o imenso elogio que se esconde por detrás de tais atitudes, mas não concordo com ele e, definitivamente, não o mereço.
Quando as circunstâncias da minha vida me presentearam com uma segunda oportunidade, abriram-se, perante mim, duas estradas com inícios, rumos, percursos e fins completamente distintos. Foi demorada a minha decisão, mais demorado ainda foi o primeiro passo, mas quando o dei levava duas certezas: não voltaria a olhar para trás e não me desviaria, nem por um instante, do meu propósito. Até hoje, mantive-me fiel às poucas certezas que vou tendo na vida.
Assim, a minha escalada pelo mundo da Educação não foi – não é – espontânea, irreflectida, inconsciente, muito menos, leviana.
Caramba, vocês conhecem-me melhor do que isto!!!
“ Mas tu és uma antropóloga!!!”, ouço frequentemente dizerem. Não. Talvez resida aí a confusão. Eu sou PROFESSORA. Não tenho, nem quero saber de outros amores.
A Antropologia é, sem dúvida, uma mais valia na minha formação e, sobretudo, na minha vida. A Antropologia ensinou-me a ver – na verdadeira acepção da palavra –, ensinou-me a pensar, muniu-me de instrumentos preciosos, amadureceu-me, esclareceu-me, iluminou-me, mas nunca me possuiu. Ela foi sempre minha, …eu nunca fui dela.
A sala de aula preenche-me, realiza-me, completa-me. E tomou-me de assalto, desde a primeira vez (ocorre-me a célebre frase de Fernando Pessoa “ Quando te vi, amei-te já muito antes”), mudando-me para sempre. Mas, e no entanto, na minha essência sinto-me a mesma. Continuo a ser o que sempre fui, uma mulher de ordem e de paz, mas decidida a caminhar sempre e ir sempre para a frente, custe o que custar, sem ódios, sem ameaças, mas também sem desfalecimentos, inexoravelmente, até à última extremidade, até onde seja necessário ir para lutar pela escola e pelo mundo em que acredito.
Romântico? Piegas? Patético? Talvez. Até pode ser, mas eu tenho desculpa. Segundo dizem, eu não consegui ultrapassar o Complexo de Peter Pan. Passo a transcrever a explicação que a minha querida prima Tânia, tão gentilmente, me deu “O complexo de Peter Pan é algo relacionado com a criança que há em nós. É o lado (bom) da nossa personalidade que não cresceu, que acredita em fadas e estórias de encantar, como a magia que nos faz voar e vencer os ganchos dos capitães (…)”. E se a Tânia diz, então é verdade.
Desculpem, mas eu tenho de sorrir! Fico contente pela minha constante e incurável alucinação. Desculpem, mas eu tenho de chorar… não consigo deixar de sentir pena por todos aqueles que, em alguma altura das suas vidas, perderam ou abdicaram do privilégio de sonhar.
É que a liberdade, na sua forma mais verdadeira e plena, apenas reside na capacidade de pensar e de sonhar. Não há regime, por mais opressor que seja, que se assemelhe à ditadura da ignorância, porque esta é a barreira mais feroz e mais resistente à liberdade.
Quando somos donos e senhores do nosso pensamento, quando exercemos o nosso direito (e dever!) de pensar, damos um grande passo na conquista da liberdade. Mas quando sonhamos…Oh! Quando sonhamos o passo é gigante! Não existem grades, muros, censuras, torturas que consigam destruir a nossa imaginação e os nossos sonhos, daí o facto de nos levantarmos todos os dias. Ou não?
Sou uma mulher de sonhos, de utopias, de causas, de militâncias. A minha militância faço-a na sala de aula, os meus sonhos levo-os e trago-os da sala de aula, a minha causa e a minha utopia são a sala de aula.
Certa de que todos temos como função (e obrigação) absoluta deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos, e porque acredito que os rumos do mundo estão condicionados e dependentes dos caminhos da Educação, não encontro nada mais coerente do que fazer a minha contra-guerra a partir do e no ensino.
Os homens de hoje andam pelo mundo ressequidos e isolados. Mas a esta união de homens ressequidos e isolados não podemos chamar sociedade! Não pode haver uma sociedade fértil onde não existe progresso, nem elevação humanos. O verdadeiro perigo para a humanidade é o vazio das almas, dos cérebros: tudo o resto não é senão uma consequência disto.
Não há nada mais triste, mais dramático, mais trágico do que um espírito amputado. Infelizmente, ainda não inventaram próteses para tal…
O meu desejo é que professores e alunos aceitassem a utopia de uma nova Educação, de uma nova sociedade e de um novo ser humano que procuram o caminho da eticidade, um caminho igualitário e livre, … acima de tudo, livre.
É preciso voltar atrás, refazer a criança, orientar para ela os esforços da ciência, porque é nela que residem a origem e a chave dos enigmas da humanidade.
Como não tenho quaisquer dúvidas de que a resposta para os grandes problemas da humanidade, assim como a salvação do mundo estão, sobretudo, nas mãos da Educação, mantenho-me firme, teimosa, birrenta no meu lugar; na minha sala de aula, seja ela onde for, seja ela como for. Desde que seja para sempre…
Porque eu, irremediavelmente utópica, quero salvar o mundo!....

3 Comments:
Belo manifesto! Adorei e lembrei-me de várias coisas:
- a pequena grande prima que tenho;
- a bela criança mulher que se tornou;
- a minha professora primária - jamais a esquecerei e creio que para muitas crianças a professora primária deixa marcas de herói/heroína;
- do meu professor de conexão, que ainda ontem me disse que o corpo tem limites mas a imaginação não e esta leva-nos até onde queremos;
- o sonho comada a vida!
Senti igualmente a ausência dos teus posts durante estes dias. Mas este foi um bom regresso!
Eu também, "quando te "conheci", amei-te muito antes"....antes de ler o texto, já sabia que qualidade não lhe faltaria!
Sabes que mais?É por falta de pessoas como tu que o mundo deixou de girar... ainda bem que te conheci:)
E fazes tu muito bem. E vais ser uma professora como deviam ser todas as professoras primárias. E isso só me faz lamentar não poder voltar atrás, para a minha sala de aula, da primária, e encontrar uma professora tão "grande" como tu!
bjs
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