Peter Pan

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Sou eu. Só eu. Nada mais...

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

Síndrome de S

Para todos os que já ouviram o termo Portugal profundo e que, como eu, pensavam que para o presenciar e conhecer teriam de se deslocar aos mais recônditos, longínquos e isolados lugares do abandonado, esquecido, discriminado e negligenciado interior português, digo-vos, desde já, que tal canseira não é, de todo, necessária.
Basta-vos ir até ao Centro de Saúde – público claro! – mais próximo, que, passados alguns loooooongos minutos de espera, tomam contacto imediato com a realidade profunda de Portugal e do português.
A minha consulta estava marcada, há um mês, para aquele dia, às 14h. Assim, por volta das 13.45h, lá fui eu, munida de todos os exames que me mandaram fazer, ouvir o que a Senhora Doutora teria para me dizer.
Dirijo-me à recepção, onde se encontra uma funcionária, particularmente antipática – estou convencida de que a antipatia e a má criação são requisitos exigidos para este cargo –, que, sem levantar os olhos, me diz “ Faça o fabor de esperar na sala de espera”. E eu, bem-educada que sou, fiz-lhe o fabor.
A sala, além de a transbordar de gente, estava abafada, o que me fez procurar um sítio para me sentar, bem juntinho da janela. Fico exactamente no meio – porque não havia outro lugar – de duas senhoras que, avidamente, conversavam.
É como lhe digo, o dinheiro vai todo para a farmácia, ficam uns trocos para a comida e prontoS…é assim a vida!” “ Coitado de quem é pobre, é o que lhe digo! É que neste país, prontoS vive-se assim… e nós, olhe prontoS, temos de viver assim.”
Aquele prontoS ecoava na minha cabeça, enquanto olhava, mais uma vez, para o relógio que já marcava 14.45h.
À minha frente, outras senhoras conversavam e, desde logo, me apercebi que, também elas, sofriam do Síndrome de SOlha que eu não sabia que estivesteS assim tão doente!!! Parece incrível, vivemos ali pegadas e eu sem saber! Mas o que é que tu tivesteS? Foi gripe?? “ Sabes como é. É só trabalho…e sabes a gente trabalhamos muito e prontoS…lembramos lá da saúde!”
Aqueles “S” todos começavam a afligir-me. Sem dúvida que se tornou numa epidemia nacional e ninguém, ainda, fez nada. Bem, não entremos em pânico. Com certeza que já estão a tratar da vacina…
Olho, pela milésima vez, para o relógio, que, sem piedade, marca 15.30h!
Uma senhora, já idosa, levanta-se a custo e dirige-se, com dificuldade, ao balcão da recepção “ Ó minha filha, desculpa,.. mas o Sê Doutor demora? Já tou prá´qui há tanto tempo!!! E dói-me tudo!”, ao que a Miss Antipatia responde “ Tem de esperar D. Rosalina! Tem de esperar como toda a gente!”. A D. Rosalina ainda insiste “ Mas a consulta era às 14.30h!”. A criatura levanta o olhar – carregado de superioridade e arrogância – e dá uma resposta (certamente à altura do seu inexistente QI), no mínimo, idiota “ Ó D. Rosalina, o Senhor Doutor está a trabalhar. Ele tem de trabalhar! Não está a brincar! Ele chega quando puder!” e a D. Rosalina, cabisbaixa, envergonhada e humilhada, murmura “ ProntoS menina, eu espero...”.
A mim, dá-me um ataque. Sem sair da minha desconfortável cadeira, finco o olhar na figurinha do balcão e concluo “Ora que boa resposta! Eu quase diria sábia!!! O Senhor Doutor tem de trabalhar, o que não se passa com todas estas pessoas. Nenhum de nós tem de trabalhar! Somos todos uns desocupados que não arranjamos melhor entretenimento do que vir para uma sala de espera, durante horas, ouvir a sua má educação e testemunhar o mau profissionalismo dos Senhores Doutores…e o seu!”. Paro para respirar. Desvio olhar para a D. Rosalina “ Não se acanhe minha senhora, somos nós, com os impostos, que lhes pagamos o salário. Estes senhores têm de prestar serviço público, é a obrigação deles! Não estão a fazer-nos favor nenhum…”. Ainda mais cabisbaixa, quase em surdina, responde “ObrigadoS, menina.”
Eu estava preparada para continuar com o meu discurso sindicalista, mas, ao aperceber-me que estava sozinha na minha revolta, resolvi remeter-me novamente ao silêncio.
Estava eu a retomar a minha reflexão sobre a invasão do “S” na língua portuguesa, quando sou perturbada por um berro “ Soraia Vanessa, põe-te quieta! Anda cá!”. Mas a Soraia Vanessa – que a mãe histericamente pronunciava Sóraia Bánéssa – estava pouco interessada nas advertências da mãe e, depois de ter rasgado todos os panfletos informativos que encontrou, decidiu destruir todos os copos de plástico existentes, enchendo-os com água e atirando-os para o chão “ Sóraia Bánéssa, olha o que fizesteS ! Ballha-me Deus! MolhasteS a saia toda! ProntoS, senta-te aqui e tá quieta!!”
Milagrosamente, o altifalante decidiu salvar-nos a todos, chamando pela irritante criança e, para o alívio de todos, a Sóraia Bánéssa foi nessa.
Olho pela janela e avisto a minha médica a chegar e a caminhar – devagar, devagarinho – sobre a relva verde e tratada, dirigindo-se ao edifício. Eram 16.05h!!!
Passados minutos, ouço “ Fernando Ricardo.” Levanto-me triunfante e digo para os restantes utentes “ Ora, Fernando Ricardo, sou eu!”.
A médica olha demoradamente para os meus exames, revê as análises, suspira, torna a suspirar… Tem aquele ar sério, de profissional competente. Sim, porque é preciso pôr cara feia para sermos bons! Quem sorri – ou pelo menos fala! - não pode, de modo algum, ser bom profissional.
Decido interromper o seu eloquente e superior silêncio “ Então Doutora, está tudo bem?”. Silêncio. Mais silêncio. Mudez. Começo a ficar aflita! Com todo aquele mistério, provavelmente já estou morta e não sei.
Mas eis que…"É tá tudo bem, tudo normal. ProntoS… agora é só esperar.”
O alívio que senti ao confirmar que ainda estava viva contrastou com a preocupação em que fiquei ao verificar que a médica já tinha sido contaminada com o Síndrome de S. No entanto, cumprindo o ritual por ela imposto, fiquei calada.
Mas que ando preocupada, lá isso ando….

3 Comments:

Anonymous pocahontas said...

Estamos em PROTUGAL! pontoS!! que queres que te diga??? és um querido, FernandO Ricardo.

12:40 PM  
Blogger Sofia said...

eheheheh pontos, bem binda, num á mais nada que se possa dizer ne?

5:06 PM  
Blogger Ana said...

Acho que o melhor sítio para se ficar doente é mesmo nos centros de saúde. Experimenta o de Rio Tinto... esse é tão chique que dá-se ao luxo de ter uma funcionária que grita mais do que os doentes! "Calem-se ou fechamos já isto", ameaça ela como se estivesse a falar para crianças....

9:01 PM  

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